quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Há muita Maria na terra...

Todas nós as temos, as nossas Marias. 

Nem todas as chamaremos necessariamente assim, mas todas temos uma maneira mais carinhosa de as apelidar.

São aquelas almas que nos acompanham ao longo dos anos. Que aturam os nossos desabafos, nos aconselham em momentos de crises existenciais, riem à gargalhada da nossa figura e fazem-nos rir a bandeiras despregadas. São as que não se importam de fazer figuras de parvas em espaços públicos, porque afinal "não nos conhecem e às tantas nem cá voltamos" - desde que a figura mais triste seja feita por nós, claro. Ou então são as que, no meio de um grupo de galinhas tresloucadas, conseguem ter o ar de "mãezinha" e pôr ordem na capoeira para que o chinfrim não seja tão grande. 

As Marias são aquelas que te estendem a mão quando precisas sem esperar nada em troca. Que te acolhem em casa como fazendo parte do inventário. Que te lêem nos olhos e na voz, e às vezes até nas entrelinhas mais bem disfarçadas, quando há algo que não está bem. São as que tão depressa te dão na cabeça, sem reservas, como pegam em ti e sabem exactamente o que fazer para te devolver a auto-estima. São aquelas com quem falas de tudo e de todos, seja bem ou mal, sem receios nem códigos. Porque se for preciso, te surpreendem com um jeito mais brejeiro - quando pensavas que mais rude que tu não dava. Porque mais que achar graça a um jeito ou expressão menos retocado, são as primeiras a usá-lo da forma mais natural deste mundo sem peneiras ou formalidades.

Estar entre Marias é deixar vir ao de cima aquela essência, tantas vezes mais rural ou primitiva, que as chamadas "normas de sociedade" tentaram polir. É andar com um fato de treino desengonçado e com uns totós no cabelo que não lembram nem à ursa. É não reprimir uma vontade de cantar mal e a plenos pulmões aquelas cantigas a que as "meninas bem" do dia-a-dia chamam parolas e que até acham quase exóticas - sem saberem, mergulhadas na sua ignorância, que têm aí também as suas origens.

As Marias são seres especiais. Ao contrário do que se costuma dizer, não há assim tanta Maria na terra. Não para mim.

As minhas Marias já me acompanharam em quase todas as fases e estados de alma. Já me viram com uma vontade de querer sair de casa e mudar o mundo, e com vontade de mandar esse mesmo mundo e todo o resto às urtigas. Viram-me começar do zero e acompanharam-me  - e continuam a acompanhar - nesses percursos. Têm paciência de santas comigo e eu com elas. Porque também não são assim tão fáceis de lidar. São Marias com personalidade, com pancadas grandes e tão diferentes das minhas que acabamos por nos compreender no meio de tanto contraste - e ao fim do dia acaba por sair uma bela salada russa, completando-nos.

Somos Marias umas das outras. Porque sermos Marias é assim mesmo.

Por tudo o que são.
Por quem são.

Obrigada, Marias!!

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A Coimbra

Podem passar os anos. Pode passar uma vida, duas ou mesmo três. Tudo vai e vem, menos tu.
Em ti vivi os anos dourados da minha juventude. Vivi em ti, e vivi-te. Deixei aí um pedaço de mim que sempre me faz querer voltar. É como um canto de sereia, mas que me faz voltar a sentir viva com quantas células tenho no corpo. Gravaste-te na minha pele. Na minha alma. Fizeste-me crescer. Entrei menina, ingénua, a pensar que podia mudar o mundo. Entrei criança. Acolheste-me como uma mãe acolhe a uma filha. Fizeste de mim mulher. Ensinaste-me a amadurecer. Fizeste-me viver os melhores anos da minha vida e ao mesmo tempo derramar lágrimas que tinham tanto de amargas como o que as boas vivências tinham de alegres. Provei o mel e o fel. Mostraste-me o teu lado mais duro, mais solitário, mais austero para depois me brindares com alegrias tão grandes que não me cabiam no peito. Foste testemunha dos meus desabafos, de noites longas de solidão, de tristeza, viste o meu desespero. Mas também me mostraste o que são as verdadeiras amizades; ensinaste-me a lutar por aquilo em que acredito, a celebrar as feridas em vez de as lamber. Graças a ti hoje não me acobardo perante contrariedades ou perante os problemas. Porque me ensinaste que os atalhos são armadilhas, e que por debaixo de cada espinha no caminho existe um roseiral que apenas se abre para quem luta por ele. Só assim se chega à meta com honestidade. Sem me trair. Sem faltar aos princípios que tu me inculcaste. Ensinaste-me o valor da palavra "Saudade". Essa palavra tão portuguesa, e tão tua. Porque, para mim, só quem realmente te viveu é que sabe o que ela significa. Essa palavra vestida de negro, de capa e batina, e que em cada letra traz a vida de quem a pronuncia.


Para mim, és sempre Coimbra. Serás sempre SAUDADE.